Carandiru
Cenas de um amontoado de pessoas em condições desumanas dentro de uma cela costumam povoar o imaginário, quando o assunto é um presídio no Brasil ou na América Latina. Sobretudo em se tratando da Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru. Em 2 de outubro de 1992, esse ícone de um sistema carcerário precário foi palco de uma chacina impiedosa que culminou em 111 detentos mortos. O Massacre do Carandiru, como a tragédia ficou conhecida, chamou de tal forma a atenção pública nacional e internacional que, em 2002, acabou sendo desativado e posteriormente demolido. Sua história, mundialmente conhecida, deu origem a livros, filmes e séries. No entanto, decorridos mais de 25 anos do incidente, o caso do massacre, bem como a trágica situação do sistema carcerário brasileiro e de muitos outros pelo mundo, continua longe de uma solução.

Entre 2004 e 2005, frequentei o local com o intuito de fotografá-lo. Naquele período, o presídio já havia sido desativado e os diversos pavilhões encontravam-se em situações distintas: alguns, em processo de demolição; outros, ocupados e projetados pelas equipes de produção responsáveis pela gravação do filme e da série; e outros, simplesmente abandonados e intocados. Realidade e ficção confundiam-se entre a cenografia que buscava identificar as particularidades de cada uma daquelas pessoas e as marcas reais entalhadas em todos os cantos.

A cadeia, seus lemas, regras e convivência manifestam-se através do vazio. Na contramão da conotação de superlotação, a ausência da figura humana nas fotografias simboliza apenas ausência corpórea, figurativa, uma vez que os vestígios daqueles indivíduos se esgoelam e se manifestam de outras maneiras. A solidão que impera em um presídio superlotado pode ser a mesma que reside nesse local abandonado. Os suspiros encontrados nos detalhes são traços de personalidade e memória daqueles que ali passaram, seja por um curto período de tempo, por praticamente uma vida inteira ou dos que de lá jamais saíram.
"Reconheço nas fotos a busca do inusitado, da solidão, do vazio e a ausência do homem que habitou aquele espaço.

Suas imagens têm uma garra e perplexidade que se sustentam por si próprias."


— Hector Babenco